Ainda era muito cedo e o sol já brilhava, embora ainda morno pra compensar a friagem da noite. Aos poucos foi aquecendo o dia , iluminando os telhados, penetrando até nas frestas do calçamento. Um lagarto solitário se esbaldou sob seus raios, deixando que o calor aquecesse seu sangue frio. Nem a minha presença, minha aproximação deliberadamente barulhenta o assustou. Mas bastou que caminhasse uns poucos metros e nuvens escuras encobriram o astro rei. Juntamente com com as nuvens, como se orquestrados, começou a soprar um ventinho frio.
O lagarto fugiu para alguma toca e eu me apressei a entrar em casa, minutos antes de desabar uma chuva forte, acompanhada de raios e trovões. Os antigos acreditavam que esse barulho e esses relâmpagos demonstravam a ira de Deus. Era até mais romântica essa visão. Hoje sabemos que nuvens estão se chocando e que convém procurar abrigo da água e das descargas elétricas, mas que Deus está tranquilo, tranquilo, esperando pra ver até que ponto vai nossa loucura.
Passados uns escassos minutos e, como num passe de mágica, a chuva parou. Abruptamente como se um ser lá do alto tivesse fechado a torneira do céu. Com ela levou o vento e afastou as poucas nuvens que insistiam em nos cobrir.
Sem a interferência dessas manifestações da natureza, eis que retorna o sol. Não em sua versão tímida do amanhecer, mas em toda sua plenitude, em seu auge.
Da janela, sem conseguir decidir se sairia ou não, parei pra pensar. A minha vida é como esse dia de outono. Sei que tempestades podem afastar o sol, mas a luz sempre volta a brilhar.
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