sábado, 31 de março de 2012

Dia de outono



Ainda era muito cedo e o sol já brilhava, embora ainda morno pra compensar a friagem da noite. Aos poucos foi aquecendo o dia , iluminando os telhados, penetrando até nas frestas do calçamento. Um lagarto solitário se esbaldou sob seus raios, deixando que o calor aquecesse seu sangue frio. Nem a minha presença, minha aproximação deliberadamente barulhenta o assustou. Mas bastou que caminhasse uns poucos metros e nuvens escuras encobriram o astro rei. Juntamente com com as nuvens, como se orquestrados, começou a soprar um ventinho frio.
O lagarto fugiu para alguma toca e eu me apressei a entrar em casa, minutos antes de desabar uma chuva forte, acompanhada de raios e trovões. Os antigos acreditavam que esse barulho e esses relâmpagos demonstravam a ira de Deus. Era até mais romântica essa visão. Hoje sabemos que nuvens estão se chocando e que convém procurar abrigo da água e das descargas elétricas, mas que Deus está tranquilo, tranquilo, esperando pra ver até que ponto vai nossa loucura.

Passados uns escassos minutos e, como num passe de mágica, a chuva parou. Abruptamente como se um ser lá do alto tivesse fechado a torneira do céu.  Com ela levou o vento e afastou as poucas nuvens que insistiam em  nos cobrir.

Sem a interferência dessas manifestações da natureza, eis que retorna o sol. Não em sua versão tímida do amanhecer, mas em toda sua plenitude, em seu auge.

Da janela, sem conseguir  decidir se sairia ou não, parei pra pensar. A minha vida é como esse dia de outono. Sei que tempestades podem afastar o sol, mas a luz sempre volta a brilhar.

Dia de outono

sexta-feira, 30 de março de 2012

Repetindo o mesmo tema...

"Quando eu não te tinha
Amava a natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a natureza como um monge calmo a Virgem Maria...
Religiosamente, a meu modo, como antes,
Mas de outra maneira, mais comovida e mais próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste a Natureza para o pé de mim.
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Porque tu me escolhestes para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente

Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou...".."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 28 de março de 2012

Se eu não te amasse tanto...

Outono.

O outono está mostrando sua face. Sopra um vento calmo, mas constante, que espalha pelo chão as folhas que ele mesmo faz cair . Por puro respeito o sol se colocou de lado, atrás de nuvens cinza claro, para que o efeito refrescante deste vento seja sentido  por todos.
Provavelmente chovera mais tarde. Que importa? Hj é apenas o dia da estreia do outono nesta temporada. Seja bem vindo!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Crescer dói tanto...


Viver seria mais fácil, não fosse a necessidade de escolhas.
Disse Jean Paul Sartre: "É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz”.
Logo a almejada liberdade resulta numa condenação. Temos que escolher cada gesto, cada movimento. Engana-se quem pensa que ficando parado, quieto em um canto, está abrindo mão dessa liberdade. Essa omissão é, em última análise, um tipo de tomada de decisão.
Mas que paradoxo é esse? A liberdade é a meta almejada, o sonho de todo ser humano. Como pode essa liberdade, que, ao mesmo tempo em que liberta, nos limita?
Como pode essa limitação, esse emaranhado de consequências se, a cada dia que passa, maior é quantidade de caminhos que se nos descortinam?
Que modelo de celular escolher? Qual o mais moderno, ou o que melhor atenda nossos desejos e necessidades? E por quanto tempo ele nos servirá?
Que programa fazer num fim de semana? Aquele filme estreando com enorme sucesso, o musical que tem arrastado multidões, o jantar com em família, ou o encontro com amigos quando recordaremos momentos agradáveis e daremos boas risadas?
A quem devemos amar? Aquela pessoa que marcou nossa vida, nos fez transbordar de emoção e desejo ou a quem nos enche de carinho e atenção? Ou será aquela que virá?
Ah! Mas como saber que é este o amor que me está destinado? São tantas as possibilidades, os romances, os desejos?
Será esse o trabalho ideal que nos dará rendimentos suficientes e satisfação profissional ou será aquele que talvez encontre amanhã?
Difícil escolher porque, no fundo, somos imaturos, inseguros. Fazer escolhas implica em pensar, decidir, assumir riscos e principalmente, estar preparado para as consequências. Implica em autoconhecimento, em saber com clareza o que queremos para nossas vidas.
E crescer dói tanto...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Um pouco de poesia numa manhã cinzenta

Alguém por inteiro
 Lila Martins

Quero alguém por inteiro...
Juntar cacos cansa, e machuca.
Quero alguém só pra mim, pro meu mundo.
Quero alguém verdadeiro... Interesses profanos...
Quero sentir que no cheiro também há o meu.
Que na saliva há meu gosto...
Na pele meu suor..
Quero a toda hora ... mas respeitando as diferenças...
Quero os sorrisos, e enxugar as lagrimas...
Quero dar colo quando estiver com medo
Quero o respeito quando o medo for meu...
Mesmo o de perder...
Pois sempre restará a possibilidade...
Mas haverá também a compreensão...
Não quero metade sua, nem metade minha.
Quero que sejamos um só!
E quero, mesmo que seja estranho...
Mas nunca um para o outro...
Indiferença mata...
Quero...
Sem invadir territórios...
Sem causar dor...
Quero o amor
Inteiro
Arteiro...
Verdadeiro...
Um amor que respeita por si só.